<font color=0094E0>Décadas de luta pelo poder do Estado</font>
Alexandre Herculano nasce no ano em que se inicia a terceira invasão francesa do território nacional. A derrota das forças imperiais ocorre nas Linhas de Torres, a 14 de Outubro de 1810, onde sofrem o derradeiro desaire militar. Até Abril de 1814, mais de 100 mil portugueses, ingleses e espanhóis rechaçam os gauleses até ao seu reduto, colocando fim à Guerra Peninsular e consolidando a hegemonia mundial do império britânico, que se manteria até ao início século XX. Nos despojos das várias invasões francesas, a Inglaterra ganha acesso privilegiado aos territórios antes colonizados por Espanha e Portugal na América do Sul.
Em Portugal, a fuga da Corte para o Brasil, em 1807, iniciara um período em que o reino se vê na dupla condição de colónia brasileira e protectorado britânico. Os acordos alfandegários impostos por Londres são profundamente lesivos para os interesses da burguesia comercial de Lisboa e do Porto.
É neste contexto que, em 1817, o general Gomes Freire de Andrade, entre outros oficias do exército e maçons, conspira contra D. João VI e a direcção do monarca exilado sobre Portugal, a qual se faz, na prática, através dos ocupantes ingleses. A rebelião é gorada e o regente Lord Beresford vai ao Brasil pedir poderes para reprimir os insurrectos liberais.
Em 1820, eclode no Porto uma revolta que rapidamente se espalha a todo o território nacional. As forças patrióticas unem-se e impõem a convocação das Cortes com o objectivo de redigirem uma Constituição. As Cortes reúnem na capital, mas o regente, D. Pedro IV, mantém-se no Brasil, território que Lisboa reclama como seu levando o rei a declarar a independência do Brasil, a 7 de Setembro de 1822. Cerca de 15 dias depois, é jurada a primeira Constituição Portuguesa.
Reacção absolutista
Com a repressão francesa a abater-se sobre os liberais espanhóis, os absolutistas portugueses animam-se. Em Queluz, Dona Carlota Joaquina, esposa de D. João VI, rejeita a Constituição de 1822. Com o filho, D. Miguel I, segundo na linha de sucessão atrás de D. Pedro IV - então D. Pedro I do Brasil -, conspira contra o liberalismo e ajuda a promover a revolta de Vila Franca, liderada pelos círculos ultra-reaccionários.
D. João VI, apesar de ter jurado a Constituição de 1822, regressa a Lisboa na cabeça dos revoltosos da vilafrancada. Muitos dos liberais fogem, destino idêntico ao que terá, em 1824, D. Miguel I, quando, insatisfeito por não ter conseguido ascender ao poder barrado pelo pai, promoverá uma revolta condenada, a abrilada.
A 10 de Março de 1826, D. João VI morre envenenado com arsénico. O desaparecimento do monarca reabre a crise política. D. Pedro IV outorga a Carta Constitucional, a qual representa um recuo em relação à Constituição de 1822 - até porque não é redigida ou votada pelas Cortes – e delega em D. Miguel I a regência de Portugal até à maioridade de D. Maria II. Mas as Cortes de 1828 aclamam o defensor do absolutismo como rei legítimo e declaram ilegítimos todos os actos anteriores do imperador do Brasil sobre o território nacional.
D. Miguel é, porém, apenas reconhecido pelos EUA e pelo Vaticano e, em 1831, D. Pedro IV abdica da coroa do Brasil a favor do filho, D. Pedro II, e vem a Portugal reclamar o trono para D. Maria II.
Guerra Civil
É neste momento que Alexandre Herculano se envolve na disputa entre liberais e absolutistas. Toma partido como soldado no regimento de Voluntários da Rainha; exila-se em Inglaterra e França e, meses depois, junta-se a D. Pedro IV na revolta do Mindelo e no cerco do Porto, em 1832. Um ano depois, as forças liberais-pedristas vencem os miguelistas entrando em Lisboa. D. Miguel I instala as suas Cortes em Santarém.
A aliança estabelecida entre os liberais-pedristas e os monarcas de França, Inglaterra e Espanha permitem a D. Pedro IV e a D. Maria II esmagarem a resistência dos absolutistas. Em 1834, D. Miguel é finalmente derrotado, e D. Maria II é proclamada rainha de Portugal pelas Cortes, que apressaram a sua emancipação.
Nos anos seguintes, até 1842, as Leis de Mouzinho da Silveira, os ministérios de Passos Manuel, e a reconstrução ultramarina levada a cabo pelo marquês Sá da Bandeira são o impulso reformador (no ensino, por exemplo) e de fomento da industrialização que a burguesia industrial e comercial reclamava. O Setembrismo afirma os caminhos da Constituição de 1822 com a homóloga de 1838, e decide a abolição da Carta Constitucional. Alexandre Herculano é um moderado partidário dos cartistas.
Contra os setembristas, levantam-se os cartistas mais empedernidos que incitam a revolta dos Marechais, a qual, só na base das cedências, é sufocada pelo poder vigente. Da negociação entre forças progressistas e retrógradas, surgem os executivos dominados pelos irmãos Costa e Silva Cabral, governo que o povo diz ser dos Cabrais. Restauram a Carta Constitucional de 1826 e avançam nas reformas administrativa, fiscal e predial, contra as quais os proprietários fundiários acicatam o povo, também ele atingido pelas reformas. Ainda pairava no ar o Setembrismo. Alexandre Herculano bate-se cada vez mais acerrimamente pelo municipalismo.
Mas é a proibição da realização de enterros no solo das igrejas que espoleta a ira popular. A revolta da Maria da Fonte grassa nas zonas rurais reaccionárias. Por todo o País multiplicam-se as «marias da fonte» animadas pelo clero antiliberal e pelo revanchismo absolutista.
D. Maria II percebe que a situação está incontrolável e demite os Cabrais, cartistas convictos que mais adiante, em Setembro de 1846, procuraram regressar ao poder pela via eleitoral através do Partido Cartista. A rainha volta a chamar figuras ligadas ao Setembrismo, e pede ao duque de Palmela que serene a situação. Mas o duque é, na opinião da soberana, demasiado ligado à «esquerda» liberal e, em Outubro de 1846, em conluio com os Cabrais, D. Maria II demite sumariamente o governo e entrega o poder ao marechal Saldanha.
O político e militar suspende as garantias constitucionais sucessivamente. No Porto, quando é percebida a manobra cabralista e cartista, os sectores ligados ao Setembrismo reagem formando uma Junta Governativa da região. Inicia-se a revolta Paluteia, a qual, muito embora tenha um cariz progressista, assenta em parte nos ressentimentos acumulados pelo povo durante a revolta da Maria da Fonte.
Os miguelistas aproveitam para agir abertamente contra a rainha e os cartistas. D. Maria II agita o espantalho do envolvimento dos absolutistas para apelar a nova intervenção da Espanha, França e Grã-Bretanha. A rebelião instala-se em todo o País e nos territórios ultramarinos. Os combates são inevitáveis e os tumultos em favor da paluteia sucedem-se, incluindo em Lisboa onde centenas são presos no Limoeiro. Somente a intervenção da Quadrupla Aliança, em 1847, abre caminho à derrota dos revoltosos, agora constituindo uma aliança contra-natura entre setembristas e miguelistas.
Regeneração
Alexandre Herculano havia há muito mostrado afastamento para o exercício de cargos político, não deixando, porém, de seguir o seu curso e neles intervir. Defensor de uma ética majestática e uma conduta integral, desilude-se sucessivamente com a corrupção e o enriquecimento rápido de gradas figuras políticas.
Derrotada a patuleia, voltam ao poder os Cabrais, mas outras figuras cimeiras anti-setembristas lutam pelo poder e, em 1851, Alexandre Herculano está com a nascente Regeneração.
Esta revela-se, contudo, um logro e assume um carácter cada vez mais despótico, anulando até ao limite a actividade parlamentar e proibindo a ascensão de outras correntes progressistas, como a da geração de 70, da qual Antero de Quental e outros socialistas utópicos e reformadores republicanos fazem parte promovendo, por exemplo, as Conferências do Casino.
Alexandre Herculano ataca vigorosamente o cariz ditatorial da Regeneração e a sua preferência pelas obras públicas de vulto, que diz colocar de lado a primazia das ideias de liberdade e democracia na transformação da realidade nacional.
Em Portugal, a fuga da Corte para o Brasil, em 1807, iniciara um período em que o reino se vê na dupla condição de colónia brasileira e protectorado britânico. Os acordos alfandegários impostos por Londres são profundamente lesivos para os interesses da burguesia comercial de Lisboa e do Porto.
É neste contexto que, em 1817, o general Gomes Freire de Andrade, entre outros oficias do exército e maçons, conspira contra D. João VI e a direcção do monarca exilado sobre Portugal, a qual se faz, na prática, através dos ocupantes ingleses. A rebelião é gorada e o regente Lord Beresford vai ao Brasil pedir poderes para reprimir os insurrectos liberais.
Em 1820, eclode no Porto uma revolta que rapidamente se espalha a todo o território nacional. As forças patrióticas unem-se e impõem a convocação das Cortes com o objectivo de redigirem uma Constituição. As Cortes reúnem na capital, mas o regente, D. Pedro IV, mantém-se no Brasil, território que Lisboa reclama como seu levando o rei a declarar a independência do Brasil, a 7 de Setembro de 1822. Cerca de 15 dias depois, é jurada a primeira Constituição Portuguesa.
Reacção absolutista
Com a repressão francesa a abater-se sobre os liberais espanhóis, os absolutistas portugueses animam-se. Em Queluz, Dona Carlota Joaquina, esposa de D. João VI, rejeita a Constituição de 1822. Com o filho, D. Miguel I, segundo na linha de sucessão atrás de D. Pedro IV - então D. Pedro I do Brasil -, conspira contra o liberalismo e ajuda a promover a revolta de Vila Franca, liderada pelos círculos ultra-reaccionários.
D. João VI, apesar de ter jurado a Constituição de 1822, regressa a Lisboa na cabeça dos revoltosos da vilafrancada. Muitos dos liberais fogem, destino idêntico ao que terá, em 1824, D. Miguel I, quando, insatisfeito por não ter conseguido ascender ao poder barrado pelo pai, promoverá uma revolta condenada, a abrilada.
A 10 de Março de 1826, D. João VI morre envenenado com arsénico. O desaparecimento do monarca reabre a crise política. D. Pedro IV outorga a Carta Constitucional, a qual representa um recuo em relação à Constituição de 1822 - até porque não é redigida ou votada pelas Cortes – e delega em D. Miguel I a regência de Portugal até à maioridade de D. Maria II. Mas as Cortes de 1828 aclamam o defensor do absolutismo como rei legítimo e declaram ilegítimos todos os actos anteriores do imperador do Brasil sobre o território nacional.
D. Miguel é, porém, apenas reconhecido pelos EUA e pelo Vaticano e, em 1831, D. Pedro IV abdica da coroa do Brasil a favor do filho, D. Pedro II, e vem a Portugal reclamar o trono para D. Maria II.
Guerra Civil
É neste momento que Alexandre Herculano se envolve na disputa entre liberais e absolutistas. Toma partido como soldado no regimento de Voluntários da Rainha; exila-se em Inglaterra e França e, meses depois, junta-se a D. Pedro IV na revolta do Mindelo e no cerco do Porto, em 1832. Um ano depois, as forças liberais-pedristas vencem os miguelistas entrando em Lisboa. D. Miguel I instala as suas Cortes em Santarém.
A aliança estabelecida entre os liberais-pedristas e os monarcas de França, Inglaterra e Espanha permitem a D. Pedro IV e a D. Maria II esmagarem a resistência dos absolutistas. Em 1834, D. Miguel é finalmente derrotado, e D. Maria II é proclamada rainha de Portugal pelas Cortes, que apressaram a sua emancipação.
Nos anos seguintes, até 1842, as Leis de Mouzinho da Silveira, os ministérios de Passos Manuel, e a reconstrução ultramarina levada a cabo pelo marquês Sá da Bandeira são o impulso reformador (no ensino, por exemplo) e de fomento da industrialização que a burguesia industrial e comercial reclamava. O Setembrismo afirma os caminhos da Constituição de 1822 com a homóloga de 1838, e decide a abolição da Carta Constitucional. Alexandre Herculano é um moderado partidário dos cartistas.
Contra os setembristas, levantam-se os cartistas mais empedernidos que incitam a revolta dos Marechais, a qual, só na base das cedências, é sufocada pelo poder vigente. Da negociação entre forças progressistas e retrógradas, surgem os executivos dominados pelos irmãos Costa e Silva Cabral, governo que o povo diz ser dos Cabrais. Restauram a Carta Constitucional de 1826 e avançam nas reformas administrativa, fiscal e predial, contra as quais os proprietários fundiários acicatam o povo, também ele atingido pelas reformas. Ainda pairava no ar o Setembrismo. Alexandre Herculano bate-se cada vez mais acerrimamente pelo municipalismo.
Mas é a proibição da realização de enterros no solo das igrejas que espoleta a ira popular. A revolta da Maria da Fonte grassa nas zonas rurais reaccionárias. Por todo o País multiplicam-se as «marias da fonte» animadas pelo clero antiliberal e pelo revanchismo absolutista.
D. Maria II percebe que a situação está incontrolável e demite os Cabrais, cartistas convictos que mais adiante, em Setembro de 1846, procuraram regressar ao poder pela via eleitoral através do Partido Cartista. A rainha volta a chamar figuras ligadas ao Setembrismo, e pede ao duque de Palmela que serene a situação. Mas o duque é, na opinião da soberana, demasiado ligado à «esquerda» liberal e, em Outubro de 1846, em conluio com os Cabrais, D. Maria II demite sumariamente o governo e entrega o poder ao marechal Saldanha.
O político e militar suspende as garantias constitucionais sucessivamente. No Porto, quando é percebida a manobra cabralista e cartista, os sectores ligados ao Setembrismo reagem formando uma Junta Governativa da região. Inicia-se a revolta Paluteia, a qual, muito embora tenha um cariz progressista, assenta em parte nos ressentimentos acumulados pelo povo durante a revolta da Maria da Fonte.
Os miguelistas aproveitam para agir abertamente contra a rainha e os cartistas. D. Maria II agita o espantalho do envolvimento dos absolutistas para apelar a nova intervenção da Espanha, França e Grã-Bretanha. A rebelião instala-se em todo o País e nos territórios ultramarinos. Os combates são inevitáveis e os tumultos em favor da paluteia sucedem-se, incluindo em Lisboa onde centenas são presos no Limoeiro. Somente a intervenção da Quadrupla Aliança, em 1847, abre caminho à derrota dos revoltosos, agora constituindo uma aliança contra-natura entre setembristas e miguelistas.
Regeneração
Alexandre Herculano havia há muito mostrado afastamento para o exercício de cargos político, não deixando, porém, de seguir o seu curso e neles intervir. Defensor de uma ética majestática e uma conduta integral, desilude-se sucessivamente com a corrupção e o enriquecimento rápido de gradas figuras políticas.
Derrotada a patuleia, voltam ao poder os Cabrais, mas outras figuras cimeiras anti-setembristas lutam pelo poder e, em 1851, Alexandre Herculano está com a nascente Regeneração.
Esta revela-se, contudo, um logro e assume um carácter cada vez mais despótico, anulando até ao limite a actividade parlamentar e proibindo a ascensão de outras correntes progressistas, como a da geração de 70, da qual Antero de Quental e outros socialistas utópicos e reformadores republicanos fazem parte promovendo, por exemplo, as Conferências do Casino.
Alexandre Herculano ataca vigorosamente o cariz ditatorial da Regeneração e a sua preferência pelas obras públicas de vulto, que diz colocar de lado a primazia das ideias de liberdade e democracia na transformação da realidade nacional.